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O que é anemia ferropriva?

A anemia por deficiência de ferro é o tipo mais comum dessa doença. Conheça as causas, os sintomas, o tratamento e as formas de prevenção

Não tem segredo: a anemia ferropriva nada mais é do que a versão dessa doença provocada pela deficiência de ferro. Apesar de não ser o único tipo — ela também pode surgir por falta de ácido fólico, entre outras causas —, é de longe a mais prevalente em todo o mundo.


Até por isso, a leitora Maria Rosimeire Peixoto nos enviou uma carta pedindo para esclarecermos o que caracteriza essa encrenca. Quais são seus sintomas? Como tratá-la?


Para tirar essas e outras dúvidas, SAÚDE conversou com o pediatra especializado em nutrologia Flávio Diniz Capanema, coordenador do Núcleo de Inovações Tecnológicas e Proteção ao Conhecimento da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).


Antes de tudo, cabe lembrar que toda e qualquer anemia é marcada pela baixa concentração de hemoglobina. Essa proteína, presente nas hemácias (as células vermelhas do sangue) transporta o oxigênio pela circulação. E o ferro é peça-chave nesse processo.


Como a anemia ferropriva surge e quais seus sintomas


Em cerca de 80% dos casos, decorre de uma alimentação inadequada que leva ao consumo insuficiente do mineral, especialmente nas fases da vida em que há uma maior demanda por ele, como na infância e durante a gravidez. No entanto, a má absorção de ferro ou a perda crônica de sangue também estão por trás da chateação.


O paciente apresenta palidez, cansaço, sonolência e tontura. Nos quadros mais severos, há falta de ar, insuficiência cardíaca e palpitações.


Se notar esses sinais, procure um clínico geral ou, no caso dos pequenos, um pediatra. Para fechar o diagnóstico, ele precisará pedir um hemograma, o famoso exame de sangue.


A queda nos índices de hemoglobina também afeta o sistema límbico, que é a área do cérebro responsável pela regulação do prazer, incluindo aí o gustativo. Por isso, o apetite é comprometido.


“A pessoa não se alimenta adequadamente e pode desenvolver hábitos bizarros, como comer terra ou chupar gelo”, relata o médico.


Como o nutriente participa ativamente do trabalho dos neurônios, crianças anêmicas às vezes desenvolvem déficit cognitivo e dificuldades de memorização, raciocínio e linguagem. “Com pouco ferro para ajudar no crescimento, elas podem ter sequelas permanentes”, informa o especialista.


Por fim, a deficiência impacta o sistema imunológico, tornando os portadores mais vulneráveis a infecções.


Como na infância as consequências são mais sérias, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda verificar a presença de anemia já aos 12 meses de idade. “O profissional deve ficar atento. Com diagnóstico precoce, há menor risco de sequelas”, afirma Capanema.


Quais são os grupos de risco


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% da população mundial é anêmica. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, sua prevalência é cerca de quatro vezes maior — e a anemia ferropriva responde por 95% de todos os casos.


As crianças são as maiores vítimas, sobretudo nos primeiros dois anos de vida.

Adolescentes e gestantes também merecem atenção especial. “Como a mulher passa a nutrir o feto, o corpo privilegia as reservas de ferro para ele, criando uma deficiência extra”, explica o profissional.


Capanema lembra que a molecada acima do peso não está livre de se tornar anêmica. “Os pais acham que o filho está saudável porque é gordinho, mas temos que desmistificar isso.


Os obesos estão em um processo inflamatório contínuo, o que prejudica a absorção de ferro”, avisa.


Anemia indica a presença de outras doenças?


“Ela tem um diagnóstico sindrômico. Isso significa que é uma manifestação comum de várias enfermidades diferentes”, responde o coordenador da Fhemig.


Quando não resulta da dieta, a anemia pode vir de problemas por trás de hemorragias ou hemólise — a destruição das células vermelhas do sangue. Alguns exemplos de males que disparam esses processos: doenças parasitárias (leishmaniose, esquistossomose), enfermidades hereditárias (talassemia) ou cânceres que atacam a medula (linfomas, leucemia).


Como tratar a anemia ferropriva


O tratamento em si é simples: o doutor receita doses de sulfato ferroso via oral por mais ou menos três meses. Ajustes na dieta também são importantes em alguns cenários.

No mais, é fundamental verificar se não há doenças escondidas que estão provocando a deficiência de ferro.


Dá para evitar?


Antes de mais nada, a prevenção passa pela reeducação alimentar. Carne vermelha, espinafre, feijão, couve e agrião possuem boas doses de ferro.


“No entanto, o ferro vindo de origem vegetal não é tão bem absorvido pelo organismo. Quando o associamos a fruta cítricas, o ácido fólico presente nelas dá uma ajuda”, ensina o especialista.


Por isso, a orientação é comer mais frutas azedinhas com as refeições. Vale laranja, uva, abacaxi, acerola, limão, caju, pitanga…


Via de regra, as gestantes vão precisar de suplementação. Elas são aconselhadas durante o pré-natal.


Agora, para os recém-nascidos a coisa muda. A melhor e mais eficaz maneira de evitar a anemia ferropriva na infância é a amamentação exclusiva até os 6 meses de vida. “O leite materno é o alimento que mais passa ferro para o organismo do bebê. É uma orientação mundial que surte bons efeitos”, indica o médico.


No momento do parto, uma medida interessante é esperar entre um e dois minutos para cortar o cordão umbilical. Isso aumenta os estoques do nutriente no recém-nascido.


Dos 6 meses até os 2 anos, a suplementação é comum devido à alta prevalência de anemia ferropriva. “Bebês prematuros ou de baixo peso correm risco adicional”, completa o profissional.


Capanema lembra ainda da importância de não oferecer leite de vaca antes do primeiro ano de idade do pequeno. É que a bebida concentra bastante caseína. “Essa proteína costuma inflamar a mucosa intestinal, levando a pequenos sangramentos no órgão por trás da anemia”, esclarece Capanema.


Portanto, as crianças que não são amamentadas por qualquer motivo devem receber fórmulas específicas. E não o leite de caixinha do restante da família.


A ingestão inadequada de ferro motivou uma regulamentação no Brasil. Desde 2004, a indústria é obrigada pelo Ministério da Saúde a fortificar farinha de trigo e milho com esse mineral — e com ácido fólico também.


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